Uniesquinas, Modelos e Perfeições

Você, que acompanha meu trabalho há algum tempo, sabe que meus posts são inspirados em conversas com outras pessoas. Ou em postagens nas mídias sociais que me chamem a atenção de uma maneira que justifique eu vir aqui no PC escrever.

E você, que está conhecendo meu trabalho, fique sabendo: “meus posts são inspirados em conversas com outras pessoas. Ou em postagens nas mídias sociais que me chamem a atenção de uma maneira que justifique eu vir aqui no PC escrever” (risos)

No Instagram, hoje, eu fiz um Story falando em qualidade de vida, um tema que eu gosto de abordar na rede social, principalmente porque eu sou Educador Financeiro, trader e investidor – e o perfil estereotipado desses profissionais é de alguém que respira dinheiro e vive de ternos e no luxo – e eu gravei tomando chimarrão sem camisa no pátio de casa. Eu escrevi e falei uma frase:

“O segredo da vida é viver a riqueza da simplicidade”.

Bom, eu tenho meus seguidores, normal. Alguns me conhecem pessoalmente. Um deles foi meu aluno no IFSul na época em que eu lecionava lá (2011 – 2015) e é um rapaz muito interessante em termos intelectuais e de postura. E aí ele respondeu meu Story com a frase: “O segredo da vida é que a vaca não dá leite, segundo o Cortella”.

O professor Mário Sérgio Cortella é um palestrante muito conhecido e eu próprio admiro seu trabalho e seus ensinamentos. Cada live dele que eu vejo, eu aprendo algo. Portanto, eu só tenho coisas boas a falar dele.

Todavia, em particular, eu não lembrava dessa frase e esse meu ex-aluno me mandou o link da live onde ele a menciona e explica. Eu assisti. Vou compartilhar com vocês aqui, por uma questão de justiça de créditos:

Eu concordo totalmente com o que ele falou com relação ao fato de que vacas não dão leite.

Porém, num dado momento da live ele compara (dentro do contexto) Harvard dizendo que “um ano de Harvard equivale a 30 anos das ‘uniesquinas’ “.

Uniesquinas é um termo que representa o desprezo pelas universidades privadas que “brotaram” em todos os lugares e que oferecem, em geral, cursos à distância mediante pequenas mensalidades. A ideia do termo é que todas essas pequenas universidades são picaretas, pois não proveriam conhecimento ou diplomas válidos. Aqui entra o ponto de reflexão meu, e provavelmente meu foco ficou no termo UNI.

Se você já olhou meu currículo, sabe que eu sou formado em universidade federal (inclusive fui professor dela) e em universidade privada. As duas universidades privadas onde eu tenho graduação e especialização começam com UNI. Respectivamente, UNINTER e UNICID. Ambos os cursos à distância, inclusive minha especialização da UNICID é em Educação à Distância rsrsrs.

Falo isso porque como tenho jornada em ambos (universidade pública e privada), eu tenho experiência para comparar – evidentemente eu só posso falar sobre a minha experiência. E minha experiência mostrou o seguinte:

  • o meu diploma em Licenciatura em Matemática, de universidade pública, serviu para eu poder ingressar no mercado de trabalho. Mas eu só consegui me desenvolver como professor mesmo é no mercado de trabalho. Muitos dos conhecimentos teóricos da universidade foram insuficientes e até mesmo deslocados da realidade do mercado educacional.
  • várias disciplinas com avaliação subjetiva (sem provas – apresentação de trabalhos) a gente percebia que a aprovação dependia do alinhamento com o pensamento do professor. Por mais que um professor seja sabido no seu campo, não se pode deixar a subjetividade tomar conta do ensino. E isso eu testemunhei em várias cadeiras da universidade pública. Ironicamente, isso aconteceu em algumas das disciplinas que deveriam me preparar como professor.
  • Nas disciplinas objetivas (aulas de Matemática), a maioria delas me construiu como profissional. Como eu posso provar isso? Simples: eu saí da faculdade sem condições de lecionar em escola (aprendi na prática, após ir pro Mercado – embora eu já desse aulas particulares durante a graduação), mas com uma bagagem boa em matemática que me fez passar em mais de 10 concursos sem estudar. Logo, a universidade pública contribuiu na minha vida nas cadeiras objetivas, as quais eu tive uma formação muito vantajosa, mas nas cadeiras subjetivas, uma formação de modo geral deficiente (com exceções).
  • Os textos e materiais que estudei nos cursos privados estavam muito mais alinhados com o mercado – tanto assim é que eu os apliquei e os aplico e consigo meus resultados.
  • Na universidade privada (nos moldes a distância oferecidos nesses dois cursos), porém, a parte de network foi deficitária: eu fiz o curso, aprendi, mas não tive contato com colegas e o contato com professores foi raso.

Vejam que eu tentei fazer uma análise fria, pode ser que eu tenha usado minha subjetividade sem perceber.

O meu primeiro pensamento: “Como que um grande homem como Cortella demonstra um preconceito com universidades que começam com UNI e estão na esquina?”

Bom, eu não sei qual é o pensamento dele em precisão, eu só posso falar sobre o que eu vi no vídeo. Todavia, ele se valeu de um recurso da mente humana que estudamos em Programação Neurolinguística (PNL) chamado de “Filtro da Generalização” – esse filtro toda a mente humana tem, até mesmo os outros animais também o têm (em escalas que não me atrevo a discutir pois Biologia não é minha área).

O Filtro da Generalização é responsável por coisas positivas, como por exemplo, proteção e segurança. Se você põe o dedo na tomada e leva choque, você aprende que por o dedo na tomada machuca. Então você não vai fazer de novo. Exceto o Homer Simpsons no Brasil:

Esse vídeo mostra o que aconteceria com a gente se não tivéssemos o Filtro da Generalização.

Porém, esse filtro quando mal usado faz com que afirmemos verdades generalizadas sem admitir exceções. Em casos mais graves, pessoas se tornam racistas, homofóbicas, violentas, sexistas (discriminar homens também se enquadra aqui, ok????), xenófobas, etc.

O termo “uniesquina” é um exemplo de resultado do filtro de generalização.

Os diplomas da UNINTER são reconhecidos no exterior e a UNISINOS é considerada a “capital das universidades privadas gaúchas”. É verdade que existem universidades “de esquina” que realmente querem apresentar falsas promessas, mas em muitos pontos eu me senti traído também na minha formação em universidade pública – então não dá para generalizar.

Como eu falei, eu não posso ler a mente de outra pessoa para entender o que ela realmente pensa – mas eu posso tentar. 🙂

Tenho certeza de que ele se referiu às universidades legitimamente picaretas – e não lembrou que algumas que começam com UNI são legítimas. Não estou fazendo juízo de valor, mas estou apenas dando um exemplo de como o filtro da generalização que TODOS temos foi acionado.

A frase mais precisa seria: “1 ano em Harvard equivalem a 30 anos naquelas universidades de esquina”. E talvez, ainda assim, minha correção teria um pouco de generalização (existem ótimas universidades localizadas em esquinas).

Validade do valor da pessoa

Uma coisa importante a destacar é: talvez você considere o Cortella uma referência, talvez não.

Independente disso, existem duas máximas a ser seguidas, tanto para ele quanto para qualquer pessoa que você tem como modelo.

  • MODELOS são REFERÊNCIAS, mas não são PERFEIÇÕES;
  • Você tem liberdade de discordar dos seus modelos em pontos específicos sem com isso perder o seu respeito e a referência.

No meu caso, eu considero o Cortella um homem inteligente de ótimos ensinamentos – o fato de eu perceber o filtro da generalização do uniesquinas não tira, para mim, a sua referência como educador.

Toda essa história serve apenas para você fazer a seguinte reflexão:

Você pode ter referências em outras pessoas que você considere brilhantes em algum campo – mas lembre-se que elas são pessoas e não perfeições. E você tem a liberdade de discordar!

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